segunda-feira, 30 de julho de 2007

DIA DE CASAMENTO



Era cedo, não sabia se iria sair ou não. Escutou pela terceira vez o galo do vizinho e pensou: - pena que os galos não conheçam feriados, dias santos e domingos. Deu sua última espreguiçada e levantou. Afinal hoje era um dia importante. O dia de seu casamento.
-Anda verinha, quer se atrasar até pra chegar no salão, hoje é Sábado, vai tá tudo lotado.
- Mãe, eu tenho reserva.
- Grande coisa! Se você se atrasar passam outra noiva no seu lugar.
- Como outra? Eu sou a única de hoje!
- Quem disse? Minha filha pobre casa sempre aos sábados, ontem já tinham marcado mais uma.
- Há, já estou indo.
Olhou pro relógio 8 horas, era muito cedo só deveria chegar no salão às 10, mas como sua mãe era muito exagerada, tinha que se apressar. Por uns segundos ficou pensando no Valdemar, o que será que ele estaria fazendo agora?...
-Valdemaaaar! Levanta menino quer se atrasar até no dia do casório?
- Mãe, já levantei.
- Então anda logo porque você vai ter que ajudar seu pai a abrir a lanchonete.
- Mas mãe, hoje? No dia do meu casamento?
- Por quê? Você vai casar e vai morrer, ficar entrevado?
- Não.
- Então não enche, menino preguiçoso, tá pensando que a vida é fácil? Ela não é fácil não; anda deixa de moleza e vai logo.
Valdemar pensou em Vera, será que o dia dela tinha começado melhor que o dele? Pelo menos D. Alice não era assim, era uma senhora fina, trabalhava no hospital, enfermeira chefe, tinha estudado, já sua mãe, coitada, sabia ler e escrever, mas era muito, assim...exagerada.
*
Enquanto isso no salão...
- Oi verinha! E aí nervosa?
- Não Hélia, tranquila, mamãe é que tá nos cascos.
- Oi Hélia, essa juventude é muito descansada, você acha que dá pra fazer tudo, até o relaxamento?
- Claro! Pode deixar.
No salão o assunto era o do dia casamentos. Duas noivas de uma só vez! era coisa de se admirar, só não irão casar na mesma igreja. Uma era crente, a outra católica.
- E aí verinha? Como vai estar a igreja?
- Há linda, tudo saiu perfeito, muitas flores, tapete vermelho, órgão ao vivo, e é claro, a carruagem.
- Escuta, é seu Domingos que vai tocar o órgão?
- Não é uma moça do centro, conhecida da mamãe, vai até Ter coro ao vivo.
- Nossa... poderosa vai abalar! como diz o bicha da novela.
- E a carruagem, aonde conseguiu?
- Há! Meu tio trouxe da chácara.
- Então é uma charrete?
- É, mas vai tá enfeitada como carruagem.
- E, seu casamento vai parecer casamento de novela! E o noivo é galã?
- Há minha filha, é galão de vila, só se for, minha filha tem tudo menos gosto pra marido, o coitado parece aquele artista que fazia o visconde no sítio, lembra?
- Mãe! É mentira, ele só é um pouco magro, melhor assim do que gordo!
- Além do mais, não tem onde cair morto, trabalha com o pai num carrinho de lanche, vê se pode? É, mais não lembrou disso antes, agora aguenta!
- E o neném quando nasce?
- Em Julho, daqui a seis meses.
- E já sabe o sexo?
- Ainda não , mas eu quero menino, mas se vier menina tudo bem...
- E os nomes?
- Ah! Se menino ou Danilo Henrique ou Robson Augusto, se for menina ou Giovana ou Daniela Carla.
- Não brinca! Nome da minha sobrinha, Daniela Carla.
- Ah! Que legal....
*
De noite na igreja...

- Carmem Lúcia! Psiu... Carmem.
- Oi D. Alice, tudo bem?
- É, como este casamento vai se levando, você vê Carmem, a família dele, ele até que é um rapaz simpático, mas a família, ainda não chegaram todos, você já viu família do noivo atrasar? É uma tristeza.. ser pobre não é defeito, mas ser relaxado e ignorante, isso sim, é grave! Ontem mesmo eu falei pro Tião como nós havíamos deixado ela se casar assim, tão nova ainda na faculdade, primeiro ano de curso... um filho, não sei como vai ser. Não gosto nem de lembrar... e ele? Ainda no 3º ano do colégio, sem emprego, sim porque ajudar o pai num carrinho de lanche, não é o que se pode chamar de emprego...
- D. Alice preciso entrar...
- Ah! Sim... acho que finalmente vai começar...
No altar quando olhou sua filha entrando na igreja, com aquele vestido branco, o tapete vermelho, as flores enfeitando a igreja, a música, pensou segurando as lágrimas que lhe insistiam em correr a face: - Ah! Valeu apenas tanto sacrifício, as dívidas, os aborrecimentos, o nervoso e o desgosto da escolha, ela é a noiva mais linda que já vi na vida...

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