sexta-feira, 27 de março de 2026

Pois é, pra quê?


 

O automóvel corre, a lembrança morre
O suor escorre e molha a calçada
Há verdade na rua, há verdade no povo
A mulher toda nua, mais nada de novo
A revolta latente que ninguém vê
E nem sabe se sente, pois é, pra quê?

( Sidney Miller)


Eram os anos 70, nasci nos anos do governo Medici, sempre achei isso triste, nascer na fase mais dura dos anos de chumbo é como carregar uma dor coletiva de saber que no país que você nasceu pessoas morriam e eram torturadas por lutar por democracia e liberdade. 

Prezo essas duas, democracia e liberdade, como princípios fundamentais da vida em sociedade. Não admito viver sem elas!


Os anos eram duros, mas a esperança e o amor da juventude eram maiores. A angústia, o sofrimento não impediam o amor de acontecer. Ser jovem e idealista é encontar nas brechas o respiro necessário. Assim, eles se encontraram: no acaso de terem a mesma visão de mundo. Mundos distintos, ideais em comum. Não sei o que une e matém casais, mas desconfio q afinidades, respeito e admiração são alguns dos ingredientes.


Das memórias da minha primeira infância, vivida em São Paulo, num morar dividido entre a casa da minha bisavó e a dos meus pais, tem o som e a poesia de "Pois é Pra Quê?". Música preferida dela, cantada na voz de baritono dele, nos passeios, dentro de um fusca, nos fins de semana. Eram momentos ternos e alegres. 

O patrão sustenta o café, o almoço
O jornal comenta, um rapaz tão moço
O calor aumenta, a família cresce
O cientista inventa uma flor que parece
A razão mais segura pra ninguém saber
De outra flor que tortura, pois é prá quê?

Nos versos de Miller está a vida de uma São Paulo dos anos agitados e rebeldes que insistia em transformar o país. Neles vivo uma mescla entre o mundo mágico da infância e à dureza da realidade cotidiana. A infância é lenta, mas os anos insistem em passar rápidos demais, nesse corre corre da vida, a familia cresceu, os sonhos se intensificaram e São Paulo foi deixada pra trás com todos os seus perrengues e alegrias. Quando a década muda minha infância passa a ser embalada pelo som das ondas do mar e pelo calor nordestino.

Num repente sem muito planejamento, a vida, na efervecente e caótica capital paulista, foi trocada por uma promessa de dias melhores no distante nordeste. Agora não é mais Sidney Miller que embala minha infância paulista, é Patativa de Assaré e seus duros versos da Triste Partida, que cantam o choro da despedida da terra natal. 

E assim vão dexando, com choro e gemido,
Do berço querido
O céu lindo e azu.
Os pai, pesaroso, nos fio pensando,
E o carro rodando

Na estrada do Su.

Agora é São Paulo que sufoca e espanta, e a jovem familia parte atrás de novas oportunidades e esperanças futuras. Eu só voltaria a morar na minha terra natal duas décads depois, já na vida adulta, mas ai já são outros versos que cantam minhas memórias...

Para Tania e Rosemiro








Um comentário: